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Semen est Verbum

O verbo é a semente

Semen est Verbum

O verbo é a semente

20.Abr.17

Os teus olhos

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Os teus dedos batem suavemente no vidro, a tua voz que outrora fora musical e agradável arrasta-se numa rouquidão granulada e ferrugenta. O teu hálito preenche o quarto de um cheiro ácido e desagradável, não me reconheces, não reconheces o mundo. Os teus olhos verdes liquidificam-se enquanto contemplas a vasta paisagem de pinheiros mansos que se estendem para lá da pequena janela que te enfrenta. O vidro que a cobre devolve-te o reflexo de um homem que já não existe, nem deves conseguir reparar em ti.

 

... E pensar que foste tu quem deu nome às coisas do meu mundo ...

 

Custa-me sempre este primeiro dia do ano. Visitar-te aqui, neste lugar onde o teu corpo permanece e a tua mente nunca entrou. Não é por ser o primeiro dia do ano, é por ser o dia do teu aniversário. Tu nunca gostaste de fazer anos neste dia, dou-te razão, é um dia invulgar, um dia que chega a parecer que não existe. Quando saí de casa, a cidade parecia mergulhada num tempo sem gente, apenas os pássaros sobrevoavam em bando as avenidas, por cima dos carros estacionados, das ruas sem gente e das estradas sem movimento, como se as badaladas finais do ano tivessem aniquilado a espécie humana.